“Reinaldo Rueda: entre o céu e o inferno”

Reinado Rueda Rivera, 60 anos, foi eleito o melhor treinador sul-americano do ano de 2016, após ter conquistado a Copa Libertadores com o time não-favorito do Atlético Nacional e ter chegado à final da Copa Sul-Americana com o mesmo time.

Ao invés de ter jogado a final, ele viveu as horas mais amargas de sua carreira como treinador ao ter conhecimento do acidente aéreo do adversário, a Chapecoense. Um ano em que Rueda viveu os momentos mais alegres da sua vida esportiva e também os mais tristes de sua carreira.

A entrevista do novo técnico do Flamengo foi dada ao repórter Roberto Florencio, da revista austríaca “Bellesterer“, em fins de julho, em Viena.

Ballesterer: Professor Rueda, sua carreira como técnico é extraordinária. O senhor nunca foi jogador profissional, mas conseguiu deixar a Universidade como docente de Educação Física para iniciar uma carreira brilhante no mundo da bola. Comconseguiu realizar esta impressionante trajetória?

Rueda: Eu venho de um bairro popular de minha cidade Cali, aonde batíamos bola e, como muitos outros meninos, também era o meu sonho ser jogador profissional. Nos jogos contra diversos ouros times do bairro, eu percebi que meu talento não era suficiente para me tornar um profissional. Assim, eu segui os conselhos de meus pais e resolvi terminar a Universidade e já com 19 anos comecei o meu primeiro curso de treinador. Depois eu aproveitei a oportunidade de um intercâmbio acadêmico por meio de uma agência alemã. Isso me possibilitou a fazer um curso de pós-graduação de dois anos na escola superior de esportes em Colônia. Era o ano de 1990 e a Alemanha recém-reunida tinha acabado de conquistar a Copa do Mundo daquele ano. O futebol alemão tinha chegado ao seu auge em todos os aspectos. Em tempos pré-internet eu tive a oportunidade de ter acesso aos conhecimentos mais avançados de metodologias e táticas. Esses dois anos na Alemanha foram decisivos para minha futura carreira e, com certeza, sem isso eu não teria chegado ao sucesso mais tarde. Houve técnicos que serviram como modelo, por seus estilos de trabalho. Sem dúvida, tenho que mencionar, em primeiro lugar Franz Beckenbauer, que foi um ponto de referência, por ter sido o técnico responsável pelo time que ganhou o título mundial. Mais tarde, também durante meus estudos, numa visita levou-me ao bi-campeão holandês da época, o PSV Eindhoven, onde me familiarizei com o trabalho do famoso treinador inglês Bobby Robson, que também influenciou minha futura carreira.

Ballesterer: Após ter retornado à Colômbia, o senhor iniciou os primeiros passos como treinador nos clubes Cortulua, Deportivo Cali e Independiente Medellin. Logo após, obteve grande sucesso quando aceitou o convite da Federação Colombiana de Futebol para assumir a categoria de base. Assim, conquistou o terceiro lugar no Mundial sub 20 do ano de 2003. Geralmente os técnicos preferem trilhar o caminho contrário, não voltando às categorias de base. Isso foi um problema?

Rueda: De nenhuma maneira. Eu adquiri valorosas experiências com uma geração muito focada e talentosa. Os meninos me aceitaram melhor por já ser conhecido por meu trabalho nestes clubes. A partir deste momento, eu formei minha comissão técnica que consistia em um auxiliar, um treinador de goleiro, um analista de vídeos, um fisioterapeuta e um psicólogo. Com o passar do tempo, formamos um time perfeitamente entrosado. Eles me acompanham até hoje e este é um fator primordial para meu sucesso.

Ballesterer: Depois o senhor foi responsável pela seleção de seu país e, por muito pouco, perderam a chance de entrar na repescagem para a Copa de 2006. Por este motivo, o senhor deixou o comando da seleção, causando o interesse de outras federações. Por fim, a oferta da Federação Hondurenha de Futebol foi aceita. Por quem este país de pouca relevância?

Rueda: Ao final de ano de 2006 o presidente da Confederação já tinha me contactado e perguntado se eu poderia me imaginar levando a seleção de seu país à Copa da África do Sul. Antes de decidir, eu fiz uma avaliação analisando alguns jogos e achei que fosse possível cumprir as metas. Eles aceitaram a contratação da minha comissão técnica, bem como os métodos de trabalho. Após ter finalizado como primeiro do grupo nas duas pré-eliminatórias da Concacaf, entramos na fase decisiva do grupo exagonal com uma grande expectativa de realizar um sonho de 28 anos de uma nova classificação para a Copa. Mas à esta altura aconteceu algo que quase nos levou ao fracasso: em Junho de 2009 houve um golpe militar e o presidente do país Jose Manuel Zelaya foi destituído. Este episódio causou uma ruptura, que também atingiu o time. Uma parte dos jogadores viu os outros como traidores da pátria e os outros como salvadores. Uma situação muito complicada que nos atingiu poucas semanas antes dos jogos decisivos para a classificação. A nossa vantagem foi que éramos estrangeiros e assim estávamos acima dos confrontos. Após muitas conversas com os jogadores conseguimos focar a mente em nossa missão em comum. Conseguimos nossa meta e chegamos em terceiro lugar nas eliminatórias e, assim, após 28 anos estávamos na Copa. Este sucesso levou o povo à uma união popular, levando-os à euforia. Enfim, o futebol tinha conseguido unir o país. Algo que a política não conseguiu. E, tudo isso num país em que, no correr de sua história, entrou em uma guerra curta com um país vizinho por causa de um jogo perdido em uma outra eliminatória.

Ballesterer: Nas eliminatórias para a Copa do Brasil o senhor foi contratado pela Federação Equatoriana e outra vez se classificou. Engraçado foi que, nesta Copa, o senhor e seus colegas Jorge Luis Pinto, que foi responsável pela seleção da Costa Rica e Luis Fernando Suarez, que foi seu sucessor na seleção de Honduras, foram três colombianos treinando seleções de outros países, enquanto seu país natal, confiou nos serviços de um técnico argentino, Jose Pekerman. Como avaliar esta graciosa situação?

Rueda: Isto, com certeza, é um excelente reconhecimento pelo valioso trabalho de meus compatriotas e o resultado de um bom entrosamento. Pekerman é um excelente técnico e muito experiente que jogou muitos anos na Colômbia e, por causa de sua filha, já é quase um colombiano naturalizado.

Ballesterer: Logo após participar de duas Copas em seguida, o senhor decidiu voltar ao trabalho diário nos clubes e escolheu o time de mais êxito da Colômbia, o Atlético Nacional. A que se deve a escolha deste time?

Rueda: Eu recebi vários convites de outras seleções como Peru e Bahrein. Mesmo na Colômbia, outro time quis contratar-me, com uma oferta mais lucrativa. O conceito esportivo e organizatório do Atlético foi o mais convincente para nós. Em comparação com outros grandes times da Argentina, do Brasil e do México, nós, em Medellín estávamos economicamente restritos. Foi um enorme desafio ter como meta ganhar a Libertadores. Em nossa primeira conversa no vestiário, comuniquei à eles que, após ter participado de duas Copas, meu desejo seria de levá-los ao Mundial de Clubes e, por fim, em menos de dois anos, consegui marcar este gol. Entre o falar e o fazer existe um longo caminho a percorrer. Com a exceção de três novas contratações, nosso êxito se deu já com time existente e três jogadores de base foram integrados ao time principal.

Ballesterer: Um enorme problema na América do Sul ainda são os valores baixos dos prêmios que a Conmebol paga para os vencedores. No total, seu time faturou somente 7,3 milhões de dólares, uma quantidade menor do que um time que participa da Champions recebe da UEFA, sem sequer ter jogado. Ao invés de buscar reforços, os times sul-americanos, após terem ganho a Libertadores, são confrontados com a saída de seus melhores jogadores. Como se pode compensar este problema e ainda manter uma boa atmosfera no time?

Rueda: Esta foi mesmo uma situação difícil de lidar. Claro que o título possibilitou que muitos jogadores fossem consultados por times estrangeiros e eu não tive outra opção, a não ser aceitar a saída de seis jogadores, logo após a conquista da taça . Com a janela de transferências aberta, seis jogadores de renome se foram. Obviamente o desmanche de um time inteiro interfere no trabalho. Eu, dentro de minhas possibilidades, tenho limitações para convencer um jogador a permanecer um pouquinho mais de tempo conosco. Apesar deles terem ótimos salários em termos colombianos, não podemos concorrer com os times do Sul. Minha maneira de contrabalancear esta situação é a contínua integração de jovens da base e convencer os jogadores que vão deixar o clube de mostrar seu melhor desempenho até o fim do contrato e incentivá-los a não decepcionar a torcida. No início deste ano, tive que submeter-me à uma cirurgia bem complicada no quadril, que me tirou por dois meses dos gramados. Mesmo com estes contratempos, fomos campeões do Campeonato Colombiano.

Ballesterer: Ainda existe uma diferença nos métodos de treinamento entre América do Sul e Europa ou já não há mais?

Rueda: Antigamente as diferenças eram muito marcantes. Hoje, com a globalização, tudo está muito nivelado. Acabei de participar de um Congresso internacional de técnicos de futebol organizado pela Federação Alemã de professores de futebol na cidade de Bochum e posso confirmar que houve um elevado número de participantes de treinadores de países não europeus. Isso significa que a metodologia e a aplicação dos conhecimentos recém-descobertos da ciência esportiva estão se espalhando simultaneamente pelo mundo inteiro. Mencionando o contínuo intercâmbio de técnicos entre os continentes, teve um efeito muito frutífero. Nomes como Manuel Pellegrini, Jorge Sampaoli e Diego Simeone, que tiveram muito êxito na Europa são exemplos desta afirmação. Além disso, não podemos esquecer que o futebol de várzea já está perdendo terreno continuamente porque os meninos entram cada vez mais jovens nos clubes.

Ballesterer: Desde a organização do Mundial Sub-20 na Colômbia,em 2011, o futebol colombiano está no auge. Junto com a pacificação social no país vem os êxitos esportivos como a surpreendente chegada às quartas de finais na Copa do Mundo e o título da Libertadores. Esta mudança vem junto com o fortalecimento nas estruturas esportivas ou ainda tem práticas ilícitas como a introdução de dinheiro do narcotráfico nas clubes?

Rueda: Há 15 anos, depois da eliminação na fase dos grupos da nossa seleção, na Copa da França, em 1998, começamos com o processo de reestruturação e investimos bastante na formação adequada dos treinadores. Um processo duradouro que precisa de vários anos para finalmente mostrar seus efeitos e resultados no gramado, mas enfim tínhamos uma safra muito boa e hoje o meu país já é o segundo mercado de transferências de jogadores, só atrás do Brasil. Falando das estruturas organizatórias de clubes, também posso confirmar uma grande melhoria. Hoje em dia todos os nossos clubes profissionais são organizados como sociedades anônimas e são monitorados e auditados pela Liga. Sem ser expert de finanças acho bem improvável que ainda hoje dinheiro de fontes ilegais possa entrar em nosso futebol. Como se pode ver nos acontecimentos na FIFA dois anos atrás, o problema da corrupção e malandragem no futebol não existe só na América do Sul, é um problema mundial. É muito bom ver que, para o bem de nosso esporte, agora se tente fazer uma limpa e afastar essas pessoas mal intencionadas de seus cargos.

Ballesterer: As horas mais difíceis de sua carreira. O senhor experimentou algo que quase nenhum outro técnico experimentou! Quase todos os membros do time adversário na final da Copa Sul-Americana perderam suas vidas num trágico acidente. Como se lida com uma situação assim?

Ballesterer: Existem rumores de que houve uma carta de recomendação da Conmebol, para que eles usassem os serviços da Companhia LaMia. O senhor sabe de algo?

Rueda: É fato que muitas federações e clubes sul-americanos utilizavam os serviços desta companhia aérea. Obviamente as viagens são sempre organizadas pela parte administrativa dos clubes, e, por isso, eu não posso tecer nenhum comentário.

Ballesterer: Qual é seu time favorito para a Copa na Rússia?

Rueda: Eu vejo a Alemanha como favorita para defender o título neste torneio. Na Copa das Confederações mostraram com muita eficiência que são capazes de integrar novos talentos na equipe e, ao mesmo tempo, atuar com os jogadores mais experientes. A versatilidade do elenco é uma vantagem decisiva que eu não observo em nenhum outro time. Dos times sul-americanos as melhores chances estão no time do Brasil, que melhorou muito sob o comando de Tite, mas é muito complicado ganhar contra os europeus no território deles.

Reprodução: Blog do Juca Kfouri/ UOL

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